William Stoddart

William Stoddart nasceu em 1925 na cidade de Carstairs, no sul da Escócia. Fez seus primeiros estudos naquela localidade, e depois frequentou a Universidade de Glasgow, onde estudou francês, alemão e espanhol. Desde aquele começo, ele sempre foi um entusiasta dos tesouros das línguas e literaturas européias ocidentais. Mais tarde, na mesma universidade, ele se formou em Medicina, continuando seus estudos nesta área nas universidades de Edimburgo e Dublin.

Desde bem jovem, Stoddart tinha interesse em entender o significado profundo das coisas. Numa entrevista quando Lynn Pollack (2003), lemos: "Eu fui educado num protestantismo simples e elementar (A Bíblia, Deus, Cristo e a oração). Eu nunca rejeitei estas coisas, mas, já aos doze anos, eu fiz a maravilhosa descoberta das religiões orientais. Isto se deu graças ao meu pai, que, engenheiro naval, ia frequentemente à Índia e trabalhava com indianos, muitos dos quais eu encontrei quando seus navios estavam em portos britânicos, e também à minha primeira educação, que incluia receber informações elementares sobreo Hinduísmo e o Islã." Stoddart acrescentou: "Nunca, por nem sequer um momento, passou em minha mente que aquelas religiões pudessem ser falsas. Eu sabia instintivamente que elas eram verdadeiras, mas, naquela época, não tinha a menor idéia de o quanto a doutrina da 'unidade transcendente das religiões' significaria para mim mais tarde. Devo acrescentar que esta intuição da validade das religiões não-cristãs de nenhuma maneira enfraqueceu a minha ligação com o Cristianismo".

Em 1945, aos vinte anos, Stoddart descobriu os escritos de Ananda Coomaraswamy. Isso mudou sua vida de forma decisiva dando-lhe uma direção definida. Pela primeira vez, ele começou a entender o que "objetividade" e verdade absoluta significavam. Num dos livros de Coomaraswamy, Stoddart deparou-se com o nome de René Guénon e, tento percebido que se tratava de alguém importante, ele experimentou em 1946 sua primeira leitura da obra de Guénon. Dessa experiência, ele disse: "Eu achava difícil acreditar que qualquer um pudesse ir tão mais longe do que Coomaraswamy, mas Guénon certamente ia." Mas havia mais – muito mais – por vir. Em sua primeira visita a Paris, em 1947, ele descobriu, numa livraria na margem esquerda do Sena, a revista Études Traditionnelles, que publicava os escritos de Guénon. Stoddart imediatamente assinou esta revista, e comprou todos os números atrasados disponíveis. Na entrevista que mencionamos acima ele descreveu a sequencia disso da seguinte maneira: "Eu repassei aqueles números atrasados um a um, lendo sistematicamente todos os artigos da autoria de Guénon. Depois examinei os outros artigos. Uma noite, tive minha atenção atraída por um artigo chamado 'Modos de Realização Espiritual'. Assemelhava-se aos de Guénon, de modo que mergulhei nele e, conforme eu vagarosamente o ia percorrendo, senti como se todo um 'Taj Mahal' de verdade – cristalina e 'simétrica' – fosse erguida diante de meus olhos! Este artigo ia tão mais longe do que René Guénon! Como isto era possível? Era como se o leitor fosse transportado corporalmente ao Reino dos Céus! Eu me perguntei: 'Quem pode ser o autor de tal artigo?' Então, procurei o nome do autor e li 'Frithjof Schuon'. Eu imediatamente peguei toda a coleção da Étude Traditionnelles que eu tinha e procurei tudo que esse Frithjof Schuon havia escrito. Naquela época, eram só uns poucos ensaios, mas felizmente havia alguns. Eu os li com a maior concentração, e fui totalmente arrebatado por eles."

Stoddart viajou muito durante sua vida. Logo depois do fim da Segunda Guerra Mundial, ele iniciou suas explorações do continente europeu. Em 1947, visitou a França e a Bélgica; em 1949, a Espanha e Portugal; e em 1950, a Itália. Nesta última viagem, descobriu, numa livraria em Florença, o nome e o endereço (em Nápoles) de um tradutor e editor italiano dos escritos de Schuon, e imediatamente decidiu seguir para Nápoles a fim de visitá-lo. Esse foi seu primeiro encontro com alguém que estava familiarizado com os ensinamentos de Guénon e Schuon, e essa pessoa, além de lhe dar informações sobre muitas coisas, também lhe deu o endereço de pessoas em Londres que compartilhavam das mesmas idéias. Assim começou uma ligação que duraria para sempre com a escola de intelectualidade e espiritualidade de Guénon e Schuon – que posteriormente se tornaria conhecida como escola "Tradicionalista" ou "Perenialista".

Stoddart formou-se em medicina em 1949. Depois de trabalhar alguns anos como clínico geral, tornou-se pesquisador na indústria farmacêutica, uma ocupação que continuou pela maior parte de sua vida. De 1950 a 1952, ele foi oficial médico no exército britânico – o serviço militar era compulsório na época –, baseado em Hamburgo, na Alemanha. Isso caiu do céu para Stoddart, na medida em que lhe permitiu aprofundar seu conhecimento da língua alemã algo que, por razões muito específicas, lhe renderia excelentes frutos mais tarde na vida.

A vida profissional de Stoddart o levou a passar vários anos em Manchester e, depois, em Glasgow, mas durante esses anos ele visitou frequentemente seus amigos tradicionalistas em Londres, bem como continuou suas viagens pela Europa. Em 1968, Stoddart mudou-se definitivamente para Londres onde passou o resto de sua vida profissional, até que, ao se aposentar, mudou-se para Windsor, no Canadá, em 1982. Falaremos mais disso adiante.

Frithjof Schuon residia em Lausanne, Suiça, e, em 1950, Stoddart fez sua primeira visita a Lausanne. Lá ele se encontrou com muitos dos amigos de Schuon, mas, como ele mesmo disse, receava pedir uma entrevista com o próprio Schuon! Só três anos depois, em 1953, foi que ele retornou a Lausanne, com o objetivo único de se encontrar com Frithjof Schuon. Esse foi o primeiro de muitos encontros com ele, pois daí em diante Frithjof Schuon foi o mentor espiritual de Stoddart. A partir daqueles dias, Stoddart também teve uma relação próxima com o amigo e colaborador de Schuon Titus Burckhardt.

As pessoas muitas vezes perguntam a Stoddart como Schuon era, e o que ele poderia lhes contar a respeito dele. Numa entrevista com Michael Fitzgerald (2005) ele descreveu Schuon da seguinte maneira: "Schuon era uma combinação de majestade e humildade; de rigor e amor. Ele era feito de objetividade e incorruptibilidade aliadas a compaixão. Encontrando-me com ele muitas vezes durante quase cinco décadas, as qualidades pessoais imediatas que constantemente me impressionaram eram sua infinita paciência e sua infinita generosidade."

Mencionamos acima o amor de Stoddart pelas línguas européias. Stoddart ficou totalmente fascinado com os 3.500 poemas didáticos e aforísticos que Schuon escreveu durante os últimos anos de sua vida. As mais de vinte obras filosóficas de Schuon foram escritas em francês, mas seus poemas foram escritos em alemão, sua língua materna. Em colaboração com Schuon e sua esposa, Stoddart tomou parte no projeto de tornar disponível em inglês essa vasta coleção de poemas inspirados. Stoddart também traduziu para o inglês vários dos livros franceses de Schuon. E alguns livros alemães de Titus Burckhardt.

Stoddart teve, de fato, por toda a sua vida, um profundo interesse em línguas, características étnicas e culturas religiosas. Aristóteles disse que cada língua é uma "alma", e consequentemente pode-se dizer que cada língua é também um "mundo". Ainda mais importante, cada religião é uma "alma", e cada cultura religiosa é um "mundo". Além de ser uma expressão da verdade divina, e de oferecer ao fiel um meio de salvação, cada religião e, dentro dela cada principal "divisão" ou "setor" (mas não cada pequena seita ou culto!) tem seu próprio perfume ou baraka. Foi com essa convicção, e neste espírito, que Stoddart empreendeu suas muitas viagens, as quais, na verdade, foram exercícios de assimilação religiosa e cultural. Por exemplo, desde o começo de suas viagens nas décadas de 1940 e 1950, ele tinha uma profunda consciência do significado da civilização católica da Europa ocidental quando viajava nos países católicos (especialmente a França, a Espanha e a Itália, mas também a Irlanda e a Polônia), do Protestantismos do século XVI quando viajava no norte da Europa (especialmente na Alemanha, na Holanda e na Escandinávia), e da Ortodoxia quando viajava na Europa oriental (especialmente Grécia, Rússia e Sérvia).

Não demorou muito para que Stoddart começasse a fazer visitas a religiões e países não-europeus: o Islã (no Marrocos, na Turquia e na Bósnia); o Hinduísmo (na Índia); o Budismo Hînayâna (no Sri Lanka), e o Budismo Mahâyâna e o Xintoísmo (no Japão). De fato – além da vida espiritual em si mesma – o principal interesse de Stoddart sempre foi a Religionwissenschaft ou "Religião comparada" como costumava ser chamada. À luz de suas leituras e viagens, Stoddart escreveu três pequenos livros: Hinduísmo, O Budismo ao seu Alcance, e Sufismo: as doutrinas e os métodos místicos do Islâ. Cada um desses livros foi publicado em várias línguas além do inglês. Ele também contribuiu com artigos para várias revistas cultas de diversos países. Por mais de quatro décadas, seus ensaios tem aparecido em publicações prestigiosas como Studies in Comparative Religion (Inglaterra), Sophia (EUA), Sacred Web (Canadá), Connaissance des Religions (França), Sophia Perennis (Espanha), Religio Perennis (Brasil) e Caminos (México). Por muitos anos, Stoddart também foi editor assistente da revista Studies in Comparative Religion. Os livros e ensaios de Stoddar foram elogiados por sua clareza e, em particular, por seu caráter "sintético". Uma resenha na revista americana Sophia (inverno de 1988) dizia: "Stoddart tem uma tremenda capacidade de síntese; ele é de fato um mestre da síntese, um autor que é capaz de extrair a essência do fenômeno que ele examina." Da mesma maneira, o professor e escritor Huston Smith expressou sua admiração com a capacidade de Stoddart de, em seus livros relativamente curtos, comprimir tanta informação. Annemarie Schimmel, professora de Estudos Islâmicos em Harvard, em referência ao livro de Stoddart sobre o sufismo, chamou a atenção para a sua clareza de expressão. Montgomery Watt, professor de Estudos Islâmicos na Universidade de Edimburgo escreveu: "O livro de Stoddart não é um mero estudo acadêmico, mas uma apresentação do sufismo como um possível meio de salvação." Mark Tully, chefe do escritório da BBC em Nova Délhi, considerou seu livro sobre o Hinduísmo como um guia sui generis e notável.

Falamos acima dos encontros frequentes de Stoddart com Frithjof Schuon enquanto este vivia em Lausanne. Qando, em 1980, Schuon mudou-se para Bloomington, no estado de Indiana, nos EUA, Stoddart, como vários outros dos seguidores europeus de Schuon, decidiu acompanhá-lo ao Novo Mundo. Em 1982, Stoddart mudou-se para Windsor, no Canadá, de modo a poder dar continuidade ao seu relacionamento pessoal com seu augusto mentor espiritual. Stoddart teve de escolher em vez dos EUA o Canadá, porque foi mais fácil para ele obter a imigração para este país. Windsor, de fato, é o ponto geográfico do Canadá que está mais perto de Bloomington.

Uma vez morando no Canadá, Stoddart continuou ativo como escritor, tradutor, e editor no campo da filosofia da religião. Além de suas muitas viagens a Bloomington, ele continuou a fazer viagens ocasionais à Europa e à Ásia. Em todas essas viagens, Stoddart visitou e fez amizade com tradicionalistas ou perenialistas em muitos países europeus, bem como na Índia e no Japão, e com seus colegas e colaboradores do Brasil com os quais formou um sólido relacionamento. Durante toda a sua vida, ele também manteve uma voluminosa correspondência com amigos de todo o mundo, bem como pessoas interessadas no perenialismo.

Em Windsor, onde hoje vive, Stoddart tem uma casa simples mas bonita e agradável, cheia de bons livros e objetos de arte das grandes civilizações religiosas. O fato de que essa casa dê, por um lado, para as águas serenas St.Claire, e, do outro, para o ativo rio Detroit, evoca a feliz combinação de profunda serenidade e prodigiosa produção intelectual que é a marca característica de sua personalidade.

 

 

Angus Macnab, William Stoddart e Bernard Kelly em Lausanne,
Suíça, em 20 de setembro de 1957.

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